"Professores devem ser avaliados pelos resultados"Leonor Figueiredo Depois de ter agitado as águas com o lançamento do livro Eduquês, Nuno Crato volta a inquietar os intervenientes na educação com um novo título, dirigido a todos quantos se interessam pelo ensino. Esta pequena conversa com o DN resume algumas das ideias que este professor sustenta, balizadas por uma maior responsabilização, de alunos e professores. E, claro, uma nova crítica cerrada à pedagogia do "romantismo", tal como fez no Eduquês. O novo livro é mais polémico? É menos polémico e mais variado do que o Eduquês. Este teve o impacte desejado? Fiquei muito surpreendido. Vendeu muitos milhares. Há muita gente interessada em saber o que se passa. Recebi centenas de cartas, mails e telefonemas de pais e professores. E reacções dos criticados? Houve só duas ou três críticas, mas moderadas. Há a ideia generalizada de que se foi longe de mais nos disparates da educação. O Eduquês não aponta caminhos mas dá ideias, algumas de "velhos" métodos, como a memorização. A pedagogia tradicional tem coisas erradas, e a crítica foi muito longe no sentido oposto. Deitou-se fora o bebé com a água do banho. Os docentes desvalorizam a memorização? Não se pôs em prática todas as ideias do romantismo/construtivismo, só o que era possível. Num dos livros de formação de professores mais vendidos diz-se que não se deve ensinar matemática às crianças porque elas descobrem-na por si. Eles não deixam de ensinar, mas desorganiza a cabeça dos professores. Critica o pouco treino na abstracção. A teoria do situated learning diz que não devo ensinar que dois mais dois são quatro, mas apenas que duas laranjas mais duas são quatro laranjas. A ideia é que se as coisas não forem dadas em contexto tornam-se abstractas e as crianças não as percebem. Isso é limitador. No Português salta-se da descodificação do texto para a compreensão aplicada, descurando a fase intermédia da compreensão literal do texto. O ensino está pouco exigente? A pouca exigência é o corolário deste romantismo. Defende mais exames... É decisivo pelo menos mais um, a meio da escolaridade obrigatória. Pela responsabilização? De alunos e professores. Os professores devem ser avaliados em função dos resultados com os alunos. Há escolas e escolas... Que valor acrescentado deu o professor? Pegou numa turma com 50% de positivas e passou a ter 60%? É muito bom. Melhor do que pegar numa turma com 90% de positivas e passar a ter 91%. Que reacção lhe suscitaram os resultados dos exames? Grave. A culpa não é dos alunos. Sobre formação dos professores, o que traz o novo livro? É a questão central. O novo livro explica a nossa proposta, em parte já aplicada pela actual ministra, que é a de os professores fazerem um exame à entrada da profissão. Mas esse exame tem de ser substantivo, sobre as matérias que vão ensinar. |
Diário de Notícias, 22 de Setembro de 2006
Leonor Figueiredo
"Somos poucos e não muito bons." É este o diagnóstico sobre o ensino em Portugal feito pelos economistas do Banco Europeu de Investimentos, Luísa Ferreira e Pedro Lima, cujos resultados "sugerem a incapacidade dos jovens em transitarem do sistema educativo para o mundo do trabalho".
Os autores usam os indicadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e desmontam argumentos desculpabilizantes do estado a que chegou o ensino. A sua análise será incluída no livro Desastre no Ensino da Matemática: Recuperar o Tempo Perdido, organizado pelo professor Nuno Crato (ver caixa).
Apesar da "progressão notável" de alunos no ensino desde os anos 60, a verdade é que, 40 anos depois, Portugal está na cauda da OCDE. O número de estudantes de todos os níveis situa-se "claramente abaixo" dos países desenvolvidos.
Só 35% dos adultos que beneficiaram do investimento na educação nas últimas décadas (hoje têm entre 25 e 34 anos) acabaram o secundário, remetendo-nos para o 3.º pior lugar, quando em mais de metade da OCDE o secundário foi atingido por 80%.
"É fácil antecipar que a desejada convergência com os nossos parceiros europeus não se processará num futuro próximo", alertam os economistas, dado os níveis de abandono escolar e saídas precoces, sem paralelo na Europa.
O mais assustador é que o número não baixou nos últimos dez anos, já que cerca de metade dos jovens entre os 18 e os 24 anos continuam a virar costas à escola. Há cinco anos, um quarto dos nossos jovens não tinha sequer concluído o 9.º ano. Os níveis de participação no secundário e universitário estão, portanto, "claramente abaixo de valores óptimos".
A qualidade não é melhor, dado o "desempenho modesto dos alunos portugueses, sempre abaixo da média global". Baseados em testes internacionais (IALS, TIMSS e PISA), os autores sublinham que o nosso sistema educativo "parece incapaz de produzir um produto cuja qualidade média consiga competir".
Melhores não são excelentes
A prestação em literacia matemática "é má", não pelos maus alunos mas pelos melhores, cuja performance é "consideravelmente inferior à média" homóloga na OCDE.
Se o nível de despesa fosse "factor explicativo decisivo", defendem os economistas, seriam de esperar "resultados bastante elevados" nos alunos com 15 anos, o que não acontece.
Quanto aos gastos, "seriam perfeitamente compatíveis com um sistema competitivo a nível internacional". A despesa por aluno no primário e secundário "coloca-nos perto da média da OCDE". Países que gastam "significativamente menos" como a Irlanda, Hungria, República da Coreia e República Checa obtêm resultados "claramente superiores".
A democratização do ensino não pode ser causa de baixa qualidade, porque a despesa por estudante não foi tão reduzida que o justificasse. Para uma procura maior houve mais despesa, com o PIB "praticamente a par" da média.
A entrada de todos os estratos sociais não fez baixar a bitola, já que, observam os autores, se isso acontecesse, os melhores alunos, os do "grupo que seria imune ao alargamento do ensino", não teria, como se verifica, "piores desempenhos relativos". A média dos 5% de alunos bons "é significativamente mais baixa que no grupo homólogo".
Só 4% dos nossos alunos atingiram um nível mais alto na literacia de leitura, enquanto na OCDE a média é o dobro.
Muitos docentes sem ensinar
Embora a análise reconheça incapacidade para "atrair os professores mais aptos", denuncia o facto de haver muitos docentes que não estão a leccionar, registando-se uma elevada percentagem de professores sem qualificações "apropriadas".
Em salário, os docentes portugueses do básico com 15 anos de experiência ganham o mesmo que os congéneres espanhóis ou franceses, "todos eles com melhor desempenho". "A situação dos professores não se distingue significativamente da maioria dos países desenvolvidos", com Portugal a ocupar a quinta posição na OCDE, com o salário de topo dos professores do básico.
Os autores lembram "a pouca atenção prestada à formação dos professores", ao seu processo de formação, entrada na profissão e exercício. E concluem que continuamos com poucos alunos no ensino e com resultados que deixam "bastante a desejar". Aconselham mais autonomia para as escolas, mais qualidade no ensino dos professores e melhor uso dos recursos financeiros.
Além de não ganharem mal, os professores portugueses têm menos alunos por turma, apesar de as crianças passarem "mais horas" nas salas de aula do que em países onde obtêm melhores resultados.