Público, 29 de Outubro de 2006
Teresa Marques
Foi noticiada a assinatura a 11 de Outubro de um acordo entre Portugal (Fundação para a Ciência e Tecnologia) e o MIT (Massachussets Institut of Technology). O acordo abrange cinco áreas científicas e envolve sete instituições nacionais. As áreas vão da engenharia e fabricação avançadas, bioengenharia à gestão. Em notícia do PÚBLICO, pude ler que em 25 de Fevereiro tinha sido assinado um acordo com o Governo, que "visa a internacionalização do conhecimento português e pô-lo ao serviço do crescimento económico do país".
Alegro-me com a notícia e espero que os bons resultados esperados se concretizem. Mas fico com uma pequena dúvida: porque será que no MIT, além da investigação e ensino em Ciência e Engenharia, também se estuda Filosofia? Quando vejo as diferentes notícias sobre o assunto, fico com a impressão de que a razão do sucesso do MIT é o facto de a investigação que se faz por lá ser dirigida à aplicação na indústria e nas novas tecnologias. Mas a Filosofia não só não é uma tecnologia, como não tem qualquer aplicação na indústria.
(...) Continuo intrigada, portanto. Fui ver a página do Departamento de Filosofia e Linguística do MIT. Pensei que talvez contratassem apenas filósofos da Ciência, ou da Matemática, linguistas computacionais, ou quem sabe algum lógico ou outro. Mas não. Estava enganada. O Departamento de Filosofia é o tipo de departamento onde não me importaria de ter estudado, com a certeza de que ficaria bem formada em todas as áreas centrais da Filosofia, e em mais algumas menos centrais.
(...) Mas o facto de que o MIT conte, entre os seus professores, com pessoas a investigar em áreas como estas não bate certo com a imagem que temos, em Portugal, do MIT. Pensamos nós por cá: mas para que servem estas coisas? Não servem para fabricar carros, ou sapatos, nem para vender refrigerantes, nem para investir na bolsa, nem para tratar das gripes. Nós não conseguimos ver utilidade nenhuma na Filosofia. Por que estudam eles filosofia no MIT? Não se entende.
(...) Eu já não esperava que este acordo (...) permitisse a colaboração entre algum departamento de Filosofia de uma das nossas universidades e o departamento de Filosofia do MIT. Mas não esperava que em Portugal se tomassem tantas medidas concretas contra a Filosofia: o Ministério da Educação suspendeu (eliminou?) as Orientações para o Ensino da Filosofia, que impunham um padrão mínimo de exigência e qualidade ao ensino da Filosofia no secundário, e eliminou também os exames nacionais de Filosofia, que serviam o mesmo propósito. Só falta extinguir oficialmente a Filosofia do ensino. Há quem diga que é essa, justamente, a ideia.