Público, 8 de Novembro de 2006
Maria Carlos Oliveira
Por que será Portugal tão persistente nesta incapacidade de ler os sinais dos tempos? António Barreto e Teresa Macedo, no artigo e carta respectivamente, divulgados no PÚBLICO de 29-10-06, abordam com frontalidade e pertinência o problema do ensino da Filosofia, pelo que não me vou alongar.
Quero apenas referir que, na minha escola, o grupo de Filosofia, contrariamente ao Ministério da Educação, não se permitiu deixar cair as Orientações para a Leccionação do Programa de Filosofia por considerar que estas centravam o ensino da Filosofia no essencial, isto é, no desenvolvimento da capacidade de pensar. Lembro-me que, na altura, se argumentou que só assim fazia sentido a integração da Filosofia na formação geral. Pergunto-me, agora, se àquela decisão do ME esteve subjacente esta percepção e, se sim, terei forçosamente que concluir haver uma intenção deliberada do Ministério da Educação em preservar o Portugal que Teresa de Sousa, no seu artigo de 31-10-06, caracteriza como um país em que "o debate é pobre, o Estado omnipresente e paternalista e a sociedade civil fraca".
Para onde vamos afinal? Termino com as palavras de homens da área científica, porque isto de convocar filósofos poderia ser mal interpretado:
"Segundo uma conhecida anedota, a Filosofia e a Matemática são bastante diferentes. A primeira tem um objectivo, mas não tem um método, enquanto a segunda tem um método, mas não tem um objectivo. Mas as semelhanças entre as duas estão subjacentes à anedota. Tanto uma como a outra exigem pensamento lógico, embora sob formas diferentes. Tanto uma como a outra são expressões superiores de racionalidade. E tanto uma como a outra nasceram na antiguidade grega" (Carlos Fiolhais);
"Na realidade, disciplinas tão fundamentais como a Literatura, a Matemática e a Filosofia podem ser essenciais para preparar um jovem para o mercado de trabalho. Por essa razão, os programas das universidades anglo-saxónicas concentram-se em áreas básicas. A tentação portuguesa, pelo contrário, tem sido a de estreitar conteúdos, orientando-os para as aplicações e escolhendo de forma bastante arbitrária aquelas que se imagina serem importantes" (Nuno Crato);
"Penso que em Portugal não se valoriza suficiente o esforço intelectual e parece-me evidente que o dinheiro sem cultura não muda a mentalidade dos novos-ricos" (Manuel Paiva).
Espero que a comparação de Carlos Fiolhais, entre a Filosofia e Matemática, não venha um dia a despertar a tentação de banir a disciplina de Matemática com o objectivo de melhorar estatisticamente o sucesso dos alunos portugueses!