Público, 12 de Novembro de 2006
Ana Cristina Pereira
A extinção dos exames nacionais foi um dos "muitos erros" cometidos nos últimos 25 anos. Por isso, o presidente da Associação Portuguesa de Matemática, Nuno Crato, defendeu ontem, no lançamento do livro O Desastre do Ensino da Matemática: Recuperar o Tempo Perdido, apresentado em Vila Nova de Gaia, a criação de um terceiro exame nacional no 4.º ou no 6.º anos do ensino básico. O matemático João Filipe Queiró anuiu.
"Os exames nacionais desapareceram e ficámos sem saber o estado real do ensino da Matemática. Só recentemente foram introduzidos os exames no 12.º ano e só há dois foram instituídos para o 9.º ", explicou. Os exames nacionais funcionam como instrumentos de avaliação externa dos alunos, mas também dos professores e do próprio sistema de ensino, completou João Queiró, afastando o fantasma das provas eliminatórias ao fazer uma analogia com o uso de um termómetro para aferir o grau de febre de um doente.
Durante a sessão, foram ainda criticadas a formação, a selecção e a admissão de docentes de Matemática. Ambos lamentaram a inexistência de "provas científicas para avaliar os novos professores". João Queiró salientou haver "como único critério a nota final de licenciatura". E advogou mesmo a criação de um exame de admissão, como há para os médicos.
O livro junta contribuições de especialistas em áreas diversas, nomeadamente o neurologista Alexandre Castro Caldas, o filósofo Anthony O'Hear, o físico Carlos Fiolhais, o sociólogo David Justino, o psicólogo José Morais, a pedagoga Luísa Araújo, o matemático Jorge Nuno Silva ou a economista Luísa Ferreira. A obra faz a caracterização dramática do ensino de Matemática em Portugal, mas também aponta algumas soluções.
Para além da recuperação dos exames nacionais aos vários níveis do percurso escolar e de uma avaliação diferente dos professores na entrada no universo escolar, Nuno Crato fez a apologia da memória. É urgente "trabalhar a memória e a disciplina" para dar aos alunos instrumentos mentais determinantes. Crato recusa "a ideia romântica" segundo a qual pode "aprender-se sem esforço, memória ou apreensão de automatismos". Passou-se do oito para o 80, isto é, infiltrou-se esta "ideologia no ensino, tornando-o laxista, pouco exigente e permitindo uma indisciplina generalizada que levou a que haja condições pouco propícias" para ensinar ou aprender.
"Há alunos que fazem mil exercícios de uma matéria que não sabem", lamentou. A solução é perceber os exercícios, tentando que o seu grau de dificuldade seja progressivo. Não obstante, o matemático considera a rotina e o trabalho fundamentais.
Nos exames do 9.º ano de 2005/2006, apenas 32 por cento dos alunos portugueses tiveram notas positivas. Quanto aos exames no final do secundário, para a prova de Matemática do programa novo, os estudantes não conseguiram mais do que 7,3 valores, numa escala de 0 a 20, na 1.ª fase.