Público, 4 de Dezembro de 2006
Santana Castilho
Porque se trata do silenciamento de uma das poucas publicações especializadas em Educação, porque os leitores e colaboradores da Pontos nos ii me merecem respeito, porque o elevado profissionalismo das jornalistas que comigo trabalharam o exige e porque o PÚBLICO era parceiro no projecto, decidi tratar aqui este processo escabroso, pese embora ser nele parte interessada e interveniente.
Como escrevi no primeiro editorial da revista e reiterei publicamente no CCB, por ocasião da cerimónia de lançamento, a Pontos nos ii vinha para inquietar, para debater, para mobilizar. Toda a administração da Texto Editores estava lá e não se surpreendeu. Não se podiam surpreender, porque foi para isso que me convidaram.
Por estatuto editorial, a revista assumiu que: se moveria por critérios de independência de pensamento; defenderia o pluralismo das opiniões sem que tal significasse prescindir da sua própria opinião; seria rigorosamente independente de poderes políticos e de interesses privados. Foi com esse estatuto editorial que, nos termos da lei, a administração da Texto Editores me nomeou director e eu aceitei.
A 25 de Agosto de 2006, dia de "fecho", um administrador ordenou que a revista lhe fosse presente antes de ir para a tipografia. Não lhe desobedeci pela simples razão de não lhe dever tal obediência. Mas cuidei pessoalmente de fazer chegar o suporte informático ao seu destino, sem interposto administrador. Nesse número, edição de Setembro, figurava a polémica Entre Vista a Maria de Lurdes Rodrigues - Cem Perguntas Sem Resposta (a ministra foi reiteradamente solicitada a conceder uma entrevista e sempre recusou), um texto de opinião do professor César das Neves, no qual, a dado passo, o autor afirmava que "o milionário negócio dos manuais escolares enriquece algumas empresas" e lastimava o "consumidor, pilhado há décadas pelos truques desse cartel", e, ainda, uma peça, de página inteira, sobre um produto da editora Verbo (que, ao que consta, tem em tribunal uma acusação contra a Texto Editores).
Regressado de férias, dias volvidos, o administrador principal, depois de lamentar "o excesso de democracia a que (eu) tinha habituado as jornalistas", interpelou-me assim: "que toda a gente na empresa lhe perguntava se já tinha visto a revista"; "que com isto se tinha cavado o mal-estar entre a revista e a empresa"; "que se (eu) achava bem estarmos a ser atacados dentro da própria revista; "que se (eu) achava que a Porto Editora faria isto"; "que se (eu) sabia quando se vendiam dicionários neste país"; "que o que os outros estariam a pensar é que nós éramos totós". Respondi ao administrador como se impunha. Verbalmente e por escrito.
Naturalmente que, depois de tão desastrada tentativa de intromissão na linha editorial da revista, o prognóstico ficou reservado. Seguiram-se algumas reuniões que seria ocioso descrever e descobri que o departamento de marketing da empresa se dava ao desaforo de planear peças para inclusão na revista. Em fins de Outubro ficou assente que se publicariam mais dois números apenas: Novembro e Dezembro. Saiu Novembro e Dezembro ficou pronto. Mas...
Na passada sexta-feira, 24, o "ozalid" da edição que devia estar amanhã nas bancas veio para revisão final. Na segunda, 27, quando as jornalistas foram introduzir as emendas, todos os registos informáticos haviam sido limpos. Durante o fim-de-semana, a administração apossou-se indevidamente da edição de Dezembro da Pontos nos ii e impediu a sua publicação. Dessa edição constava uma entrevista de fundo a Jerónimo de Sousa, um editorial muito crítico sobre Sócrates e uma Mensagem aos Leitores e aos Colaboradores, que narrava com mais detalhe o que acima fica escrito.
O anterior são os factos. O que se segue é a minha opinião.
A Texto Editores justificou no site da revista motivos económicos para o encerramento. Poderia até invocar o aquecimento global e o degelo das neves da Patagónia. Nenhuma dessas coisas explica e justifica o que acima escrevi.
Durante um ano, eu e as jornalistas que comigo fizeram a Pontos nos ii testemunhámos que o medo domina muitos professores, que falaram sob sigilo, com receio de represálias. Responsáveis recusaram falar por não estarem autorizados e por medo. O medo é palavra que está de volta à nossa sociedade e às nossas escolas. Sob outra forma, noutro contexto, mas medo. Medo de falar. Medo de perder o emprego.
Os efeitos nefastos da máquina da propaganda governamental são referidos com frequência pela pena de colunistas e pela voz de políticos e circula no meio um Apelo em Defesa da Liberdade de Criação e de Expressão dos Jornalistas, que muitos sentem ameaçada. A ministra da Educação, há bem pouco, convidou-nos a aceitar como natural a entrada da polícia nas escolas. O clima de autoritarismo que a "esquerda moderna" introduziu na política incentiva vocações adormecidas de pequenos ditadores, sobretudo quando intuem que o seu negócio pode sofrer por enfrentarem quem manda. O equívoco foi mútuo: o Grupo Texto Editores pensou que nós íamos fazer a sua "newsletter"; nós pensámos que eles eram mais do que simples negociantes de livros escolares. Os métodos pidescos que escolheram são simples corolário destes tempos modernos.