Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Quanto ao Parecer que vem (do Centro) da SPF:
Os objectivos estratégicos do Parecer (do Centro) estão suficientemente afirmados e passo por isso já para o problema da Lógica. Deduzo que existe o propósito de introduzir a teoria da argumentação de Perelman e, do parecer do Centro da SPF, o de manter a lógica tradicional.
a) Julgo que o Parecer do Centro da SPF tem o dever de se pronunciar sobre o valor (negativo) da teoria de Perelman para o início da educação lógica de um estudante liceal. A inserção da retórica de Perelman como início da educação lógica do estudante liceal tem que ser reprovada, por não ser uma teoria lógica.
b) É preciso dizer que a identificação da Lógica com a lógica tradicional é uma deformação tão provinciana como identificar a Física com as teorias de Demócrito. É preciso que se justifique o ensino da lógica tradicional como uma análise do conceito de consequência, assim como seria necessário justificar num programa de Física o ensino das teorias de Demócrito como (a única ou a melhor) análise do conceito de matéria. Por isso tem que ser inequivocamente dito que o ensino da lógica tradicional carece de qualquer justificação e tem que ser simplesmente substituído por uma versão didacticamente eficiente dos elementos da lógica contemporânea.
c) Além disso, uma exposição didacticamente eficiente da lógica tradicional é mais fácil de realizar depois de se dispor de um stock de noções da lógica contemporânea, da qual a lógica tradicional é apenas uma parte.
d) Os (maus) hábitos dos actuais professores de liceu não devem determinar o conteúdo da parte de Lógica do Programa.
07/08/2000
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve
Manifesto a minha concordância com as críticas apresentadas pelo CEF à proposta de programa de Filosofia para o Ensino Secundário emanada do Ministério da Educação. A meu ver, essa proposta revela debilidades suficientemente graves e numerosas para motivarem a sua substituição pela proposta alternativa do CEF, a qual as elimina com sucesso.
A mais óbvia de todas elas é a apresentação de uma lista de temas vagos, deficientemente caracterizados e apenas remotamente filosóficos, da qual está conspicuamente ausente a generalidade dos problemas e teorias filosóficas que têm vindo a caracterizar a disciplina nos últimos vinte e cinco séculos – e sem os quais não é simplesmente possível fazer filosofia ou iniciar alguém na filosofia. A filosofia procede pela identificação de um problema ou conjunto de problemas (e.g. como se justifica o nosso conhecimento do mundo exterior, como é caracterizada a relação entre a linguagem e a realidade extra-linguística, que comportamentos são eticamente correctos) e pela avaliação dos méritos e deméritos das teorias apresentadas para os resolver – o único processo por meio do qual teorias alternativas podem alguma vez surgir. Todos os grandes filósofos, chamem-se eles Platão, Hume ou Kant, merecem a denominação de «grandes» pela simples razão de que fizeram isto particularmente bem, ou inovadoramente, ou ambas as coisas. Se isto é assim, aprender filosofia consiste basicamente em adquirir proficiência na execução destes procedimentos, por meio da compreensão dos referidos problemas e da análise crítica das referidas teorias. Ignorando este facto singelo, a proposta do ME falha rotundamente no seu objectivo de orientar programaticamente a aprendizagem da filosofia.
Por outro lado, essa proposta está povoada por confusões conceptuais e por genuínos erros científicos – por exemplo, a caracterização do trabalho filosófico como «trabalho hermenêutico» e «interpretativo» (2 A 1.2.), como se filosofia e exegese fossem a mesma coisa, a nefasta embora popular identificação (aceite acriticamente pelos autores) da retórica com a argumentação (2 A 1.3), e o aberrante destaque concedido à lógica aristotélica, a qual ainda por cima é oferecida em alternativa à «lógica proposicional» (é provável que os autores desconheçam o significado desta expressão).
Além disso, ignorando em geral o facto de a filosofia se caracterizar pela discussão racional de problemas e teses, a proposta do ME contradiz estranhamente as suas próprias profissões de fé iniciais acerca da necessidade de promover «a autonomia do pensar» (presumivelmente isto significa o espírito crítico) e de submeter à discussão pública as opiniões que se formulam, bem como o seu reconhecimento explícito de que «os problemas são originários e constitutivos do acto de filosofar». É impossível saber em qual das duas coisas os autores da proposta acreditam – se nas profissões de fé, se na correcção dos conteúdos programáticos efectivamente apresentados. No pior dos casos, acreditam em ambos – o que indicia um razoável desconhecimento do conteúdo real da proposta que subscrevem.
07/02/2001
Doutor em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa
Professor Associado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Venho por este meio tornar pública a minha concordância com a generalidade das críticas feitas pelo Centro para o Ensino da Filosofia à proposta de revisão curricular do programa de filosofia para o Ensino Secundário apresentada pelo DES, bem como a minha concordância com a generalidade das sugestões apresentadas pelo Centro para o Ensino da Filosofia para corrigir e melhorar essa mesma proposta de programa. Não é este o âmbito de uma discussão de detalhe da matéria em apreciação.
Situações deste tipo são muito graves. Uma suposta discussão pública que não acata quaisquer sugestões, não é, de todo, uma discussão. É apenas um momento, lamentável, de um processo administrativo e burocrático que pode culminar com a consagração de um programa contendo erros e defeitos graves como sendo “o programa de Filosofia para o Secundário”. Se assim for o DES prestou um péssimo serviço à Filosofia em geral e, em particular, ao ensino desta em Portugal. Espero sinceramente que tal não venha a ser o caso.
12/12/2000
D. Phil. (Oxford) e doutora em Filosofia (Universidade de Lisboa)
Venho por este meio manifestar publicamente o meu completo apoio, não apenas à proposta de programa elaborada pelo Centro para o Ensino da Filosofia da SPF para a disciplina de Filosofia no ensino secundário, mas também ao diagnóstico feito pelo CEF com respeito à proposta de programa proveniente do Ministério da Educação. Em primeiro lugar, o diagnóstico identifica correctamente um conjunto de deficiências e erros recorrentes no ensino da Filosofia no nosso país, os quais são extensíveis ao ensino universitário e têm gerado a falta de credibilidade científica que a disciplina tem em geral entre nós; de notar que uma tal imagem negativa é particularmente lamentável relativamente a uma disciplina com as elevadas credenciais cognitivas que a Filosofia tem junto da comunidade científica internacional. Em segundo lugar, o programa alternativo proposto pelo CEF constitui um passo crucial no sentido de contribuir para nos colocar em paridade com o desenvolvimento internacional da disciplina e permitir a sua desejada reabilitação. O aspecto da proposta que mais milita para tal é a concentração explícita num conjunto apropriado de problemas e tópicos filosóficos perenes e na discussão racional de um conjunto apropriado de teorias e ideias a seu respeito, a qual procede sobretudo através da construção e avaliação crítica de argumentos.
13/12/2000
Professor do Ensino Secundário
Serve esta mensagem para evidenciar todo o meu apoio à vossa proposta de Revisão do Programa de Filosofia para o 10º e 11º anos.
Ganha em clareza. Ganha em rigor. Ganha em filosofia.
Sugeria apenas a elaboração, por parte do CEF, de uma planificação de aula exemplificativa por cada Unidade da proposta de Programa.
Professor do Ensino Secundário
1 – De um modo geral aceito os vossos considerandos não obstante julgar que o recurso ao texto dos filósofos (mais ou menos clássicos) não é necessariamente, e apenas, saber o que disse A, B ou C.
2 - A V. proposta quanto aos conteúdos é, para mim, aceitável mesmo que pontualmente um que outro tópico me seja arredio (p. ex.: liberdade é um tema político e livre arbítrio metafísico? E pode-se discutir um sem o outro?). Quanto à bibliografia é que, por demasiado restritiva, não a subscrevo.
3 - Estou em crer que o problema do programa de filosofia é mais um problema de método do que de conteúdos e que há que compatibilizar os textos dos filósofos com o filosofar. Mas isso é, repito, um problema de método.
4 - Obrigado pelo vosso esforço e pela partilha.
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa
Exmos Srs
Junto alguns comentários gerais avulso, que estarei pronto a aprofundar convosco caso vejam interesse nisso. Quando o ME há muitos anos atrás tentou acabar com a Filosofia no secundário fui dos que me manifestei em público e por escrito contra essa opção, e honro-me de ter contribuído para que tal não acontecesse.
Também hoje gostaria de dar algum contributo no sentido de apoiar a crítica à proposta do ME, e a proposta própria do CEF - Centro para o Ensino de Filosofia (da Sociedade Portuguesa de Filosofia) relativamente ao projecto de programa de Filosofia (10.º e 11.º anos).
Assim:
1 - Estou de acordo com as críticas do CEF ao programa oriundo do ME. Não se pode reduzir a Filosofia à exegese hermenêutica e à desconstrução de textos. Pelo contrário, o relativismo desconstrucionista, sendo apropriado na crítica literária e nalgum relativismo antropológico legítimo, suas origens, não é extensível à ciência em geral, à racionalidade lógica, e à metodologia filosófica. Sendo por outro lado auto-invalidante porque se relativiza a si próprio. Não é certamente a ideia profunda a incutir aos nossos jovens, a de que o que interessa é a retórica do vale tudo e do marketing persuasivo, a do que tanto faz e que basta convencer o Outro sem referência a critérios de exigência de rigor, de observação, e de coerência com o real, que afinal existe!
2 - Concordo com a ênfase do CEF no desenvolvimento de capacidades críticas. Acho que podiam e deviam ir mais longe, nomeadamente enfatizando aspectos gerais de Critical Thinking, hoje em dia em exploração em muitos programas do secundário por esse mundo (basta consultar a Net). Em particular, julgo que se pode e deve ir bem mais longe nos instrumentos para tal, para além dos aspectos de Lógica por vós referidos, expondo e exemplificando por exemplo noções de Representação de Problemas, de Redução de Problemas a outros, de Métodos de Procura de soluções (top-down, bottom-up, em profundidade, em largura, com heurísticas, etc), Revisão de Crenças, Geração de Hipóteses por Abdução, Argumentação Formal (e não retórica), Satisfação de Restrições, Planeamento de Acções, Heurística e Optimização, Teoria da Decisão Custos e Trade-offs, Teoria dos Jogos, etc. Em todos estes tópicos existe literatura acessível aos professores. Em resumo, a racionalidade hoje em dia vai muito para além do início da Lógica, e tem um escopo muito vasto aplicável em muitos ramos e abordagens do saber, com inegável valor de treino e formação metodológicos.
3 - Não se pode almejar a que jovens com muito poucos conhecimentos em àreas disciplinares do saber, e com um pensamento ainda pouco disciplinado, treinado, e flexível, sejam capazes de entender em profundidade e formar as suas próprias opiniões sobre o grande número de questões filosóficas abordadas no vosso programa. Isso é tarefa para toda uma vida! Sem dúvida que interessa expô-los a essas questões, até como semente para elaboração posterior, e para lhes dar uma visão de dimensões da vivência humana, como contraponto ao consumismo mercantilista redutor das vidas. Mais importante será o elaborarem a capacidade de análise e de síntese sobre posicionamentos acerca algumas dessas questões, e do saberem discutir disciplinadamente com os colegas, com o nível de conhecimentos que têm, como treino para apreciarem criticamente e verbalizadamente o que quer que seja. Por exemplo, o tópico do criacionismo versus o neo-darwinismo pode ser sumarizado com os argumentos de parte a parte, percebendo-se o essencial e o acessório, e suas as motivações científicas, religiosas, morais, e sociais, e a sua história. O aluno deverá saber sintetizar as posições e argumentos, e ensair a discussão com os colegas, em que cada um exprime um ponto de vista (como se fosse o seu). Muitos outros tópicos são susceptíveis de um tratamento reconstrutivo, que não é o mesmo que desconstrutivo e relativizante.
4 - Em resumo, parece-me que é o exercício da capacidade de equacionar, fazer evoluir, tirar consequências, obter mais informação, argumentar, contrapôr e convencer, etc, em domínios de abordagem filosófica, aprofundando em detalhe o exercício nalguns casos concretos, que dará um treino intelectual, metodológico, e de construção colectiva, exportável para outras áreas problemáticas e de saber, dando confiança à capacidade de uso em comum da racionalidade em sentido lato, sabendo fazer uso das fontes de informação disponibilizadas.
Estou à disposição para esclarecimento se necessário.
Cordialmente,
Luís Moniz Pereira
03/10/2000
Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
1.º Parecer (sobre a proposta oficial)
É sempre com desagrado que me vejo obrigado a criticar publicamente o trabalho de colegas, estando seguro de que as concepções que defendem e o trabalho que submetem a apreciação reflectem posições sérias e merecedoras de respeito. Não me é, porém, possível escapar ao confronto, quando se mostram tão irredutíveis às minhas próprias concepções. Mas a empresa é arriscada, porque a proposta de programa em apreço não é fácil de criticar.
A uma leitura superficial, esta proposta de programa de Filosofia parece não ter nexo ou coerência que lhe confira sentido. Um exame mais atento revela, porém, uma realidade bem diferente. Trata-se de uma proposta de programa extremamente inovadora na organização dos conteúdos e nos objectivos que visa. É toda ela percorrida por um fio condutor coerente, determinante:
1. das questões a tratar (apesar de estas poderem ser outras);
2. da perspectiva pela qual são abordadas;
3. das competências a promover/avaliar nos alunos.
1. No entanto, esta coerência esconde-se. Por um lado, porque a proposta optou por seguir de perto a estrutura do programa vigente; por outro, porque a descaracteriza ao ponto da completa subversão.
A consequência imediata dessa subversão é a inviabilização das estratégias e abordagens comummente seguidas pela generalidade dos docentes. É por isso que não é possível ler esta proposta sem se ficar com a sensação de que algo de essencial da antiga Filosofia ficou de fora. Mas quando se busca o que é só se consegue apoiar este ponto de vista em aspectos superficiais.
Esta é uma questão delicada, à qual devemos prestar atenção. Veja-se, por exemplo, o que acontece quando comparamos os objectivos gerais da proposta (que insistem no recurso sistemático aos textos dos filósofos: no texto da proposta, vide C1., 2. e 3, pág. 10) com o percurso didáctico que a executa. A impressão com que se fica é de uma nítida inconsistência, porque não se percebe como podem os textos dos filósofos – excepto num ou noutro ponto – enquadrar-se na proposta, já que as questões tratadas ou não recebem, ou não são susceptíveis de receber tratamento filosófico.
Achamo-nos perante um programa eminentemente discursivo, que articula sequencialmente um conjunto de conteúdos definidos. Um programa que, ao contrário do actual, impossibilita o recurso aos textos dos filósofos não tanto por não os convocar expressamente, quanto por tornar essa prática materialmente impossível, dado o modo como os conteúdos se acham organizados e enquadrados, em particular com vista à avaliação.
Como e porque acontece isso? Só por comparação o poderemos perceber. No programa actual – como em anteriores –, essa dificuldade não se manifesta, devido à presença evidente dos problemas filosóficos. Neste programa, pelo contrário, não só faltam os problemas filosóficos (foram substituídos pela abordagem filosófica de um conjunto de problemas, posteriormente seleccionados pelo docente) como a problematicidade e a reflexividade se deixam dissolver na bem urdida teia conceptual (vide págs. 15, 27-30, 32-33: colunas centrais, em itálico), que em última análise enuncia os "conteúdos/competências") a que o ensino da filosofia é reduzido.
A questão é tudo menos casual e relaciona-se com outra característica inovadora (ou subversiva) deste programa: a da redução da filosofia à retórica, através da argumentação. De um momento para o outro, a questão e o questionamento filosóficos tornaram-se secundários: essencial é apreender e ser capaz de dominar um conjunto definido de conceitos. Naturalmente, os diversos tipos de avaliação praticados só podem reforçar essa redução.
Que implica isto? A pulverização da filosofia como disciplina, a anulação da atitude filosófica, a atomização dos problemas filosóficos (que já só são os do "mundo contemporâneo", ou os da "racionalidade científica e tecnológica": págs. 31, 34), pela sua redução a conceitos integráveis em argumentações. Ou, por outras palavras, a indefinida proliferação das "conversas filosóficas".
Está isto errado? São estes propósitos indignos? Não creio. Sucede apenas que não estou de acordo com eles (nem com a "conversa rortyana" de que procedem). E por isso protesto.
Naturalmente, num programa destes não há lugar para o saber (só posso pensar nas observações cáusticas de Cálicles, no Górgias 484c-485e, que merecem atenção). O lugar da sophia foi agora ocupado pelo discurso. Mas não é do logos que se fala. Sintomaticamente, a racionalidade aparece quer reduzida à argumentação, quer associada à "racionalidade científica e tecnológica". Não me cabe falar do que se terá perdido com toda esta degradação.
2. Cabe é perguntar a que princípios obedece este plano. E a resposta é evidente, no programa: na defesa da cooperação (do meu ponto de vista, subordinação) da Filosofia à Retórica (com maiúscula no texto: pág. 13).
Poderia agora lançar-me em grandiloquentes protestos sobre a inanidade de tal propósito. Mas não o farei. Limitar-me-ei a comentar os equívocos em que se baseia.
O conflito entre a filosofia e a retórica é um conhecido topos platónico, manifesto numa porção de diálogos (com maior protagonismo na Górgias e no Fedro). Deu origem a uma série de debates, repetidos fora do contexto original, em generalidades tão desinteressantes, quão apologéticas (além de fáceis de repetir pelos alunos).
Ao contrário do debate inverso, entre a Retórica e a filosofia, aqueles mantêm-se vivos hoje, apenas porque Platão continua a ser lido e estudado. Daqui nasceram diversos equívocos.
O primeiro é o de que a filosofia deve ser responsabilizada pela eliminação da retórica do currículo de estudos do Ocidente. Mas é falso! Essa responsabilidade coube à gradual implantação do ensino e da cultura científica e tecnológica.
E assim chegamos ao segundo equívoco. As invectivas de Nietzsche contra Platão, captadas por Derrida e amplificadas pela chamada "nova retórica", inspiram a ideia de que chegou a altura de corrigir os excessos do racionalismo, denunciando o imperialismo da racionalidade e os abusos do logocentrismo. Mas também não há justificação para tal terapêutica. Pois não é a filosofia a responsável pelo imperialismo e pelos abusos da razão, mas os que abordam apologeticamente.
O terceiro equívoco é um mero corolário do segundo. A crítica da racionalidade, expressa na teoria da argumentação de Perelman (vide o excelente resumo no artigo ‘argumentação’, da enciclopédia Einaudi), mostra quão pouco "racionais" são os argumentos dos racionalistas. E é verdade! Mas o argumento não se aplica à filosofia, muito menos pode justificar a subalternização do "ideal" da racionalidade.
Ou seja, todos sabemos que só com a Razão não se ganham discussões, nem se convencem pessoas (o próprio Sócrates não era com ela que as ganhava!). Mas daí não se segue que tivessem sido possíveis o desenvolvimento da filosofia e da Ciência no Ocidente, sem uma teoria da verdade, da dedução, etc.
Daqui resulta que a Retórica não pode ser convertida em tópico de programa de Filosofia, por mais que viva e prospere na publicidade, nos parlamentos, nos meios de comunicação, etc. E muito menos que a filosofia deva cooperar com ela. Quer dizer, remeter-se à proliferação das conversas: na praça pública ou nas "avenidas da informação".
Associado a esta cadeia de equívocos acha-se o absurdo inaugural da proposta: a confusão da "introdução à Filosofia" com a "dimensão discursiva do trabalho filosófico". Porquê absurdo? Por duas razões. Primeira, porque a questão do "texto" é profunda e complexa, não se podendo reduzir ao enunciado daquela meia dúzia de lugares comuns ricoeurianos que umas 15 horas de leccionação consentem (vide pág. 27; para mais envolvidas com "avaliações diagnósticas"). Depois porque deve ser difícil explicar o que é um texto a uma massa de estudantes, cujo nível de letramento dificilmente ultrapassará o do compêndio.
3. Sobre o conjunto de todos estes pontos, consubstanciado na submissão da filosofia à retórica, assenta esta proposta. Como está, parece-me indiscutível que não pode ser revista, reestruturada, emendada, ou sequer melhorada. É para rejeitar integralmente.
Talvez depois seja possível iniciar um debate – agora que a data da entrada em vigor da revisão curricular foi deslocada –, tendente ao esboço de um genuíno programa da disciplina de Filosofia.
2.º Parecer (sobre a proposta oficial)
Novo programa de Filosofia para o Ensino Secundário
Tudo aponta para a iminente aprovação do novo programa de Filosofia para o Secundário. Com ele acontecerá o que poucos teriam julgado possível durante a fase de "debate" do projecto. A disciplina de Filosofia acha-se transformada numa versão culturalista da antiga "Introdução à Política".
Tal transformação agradará a muitos, sem dúvida, e poderá proporcionar a multiplicação das acções sobre "cidadania", trazendo consigo novos compêndios, cheios de estimulantes reflexões sobre a sacralidade do texto e interessantes temas de discussão, como o ambiente, os direitos dos animais, e um sem número de tópicos candentes na actualidade (ou seja, a contemporaneidade última). Entretanto, o perfil da filosofia como a única disciplina vocacionada para a investigação e questionamento do saber, perder-se-á, não se sabe se definitivamente, afundada na proliferação das "conversas" a que Rorty nos condenou. A identidade de uma disciplina alicerçada no currículo das disciplinas filosóficas deixará de poder ser objecto de estudo pelos jovens do nosso país.
Para muitos é inevitável, para muitos ainda será um efeito do progresso, mas também para muitos será uma perda, talvez irreparável. Lamentável é que as suas vozes se não tenham feito ouvir.
16/11/2000
3.º Parecer (sobre a proposta oficial)
Este é o terceiro texto em que me pronuncio sobre a proposta de programa de Filosofia apresentada pelo DES. Com o tempo, tenho vindo a ganhar uma perspectiva mais distanciada, afastada da letra (e dos erros) da proposta, para prestar atenção aos seus pressupostos e às consequências da sua implementação.
Optando por não criticar a proposta em pormenor (que sentido terá fazer isso agora?), tentarei pronunciar-me sobre os pontos em que se situa o desacordo mais profundo.
1. A proposta é redutora
Por quase se limitar à Filosofia da Acção (75 horas, no 10º ano) e conceder excessiva atenção às questões ético-políticas (cerca de 40 horas, no 11º ano). Ou seja, 115 horas, num total de 170 horas lectivas.
2. A proposta atenta contra a identidade da disciplina
(Para quem preferir um programa temático), por não respeitar a diversidade e o equilíbrio das disciplinas filosóficas;
(para quem optar por um programa historicista), por ignorar, e impedir didacticamente, uma compreensão genética e reflexiva da filosofia (como tradição, prática e domínio de investigação).
Por impedir aquilo que deve promover: o conhecimento e o estudo dos filósofos e dos seus textos.
3. A proposta contém erros científico-pedagógicos
Por abordar questões de difícil ou impossível compreensão pelos estudantes:
a) “A dimensão discursiva do trabalho filosófico” não é acessível a quem não tenha o hábito de contacto com textos;
b) Não tem sentido ensinar “Retórica e filosofia” a quem nunca tenha ouvido falar de uma e de outra (para mais no contexto de debates políticos concretos);
c) Uma compreensão adequada do “estatuto do conhecimento científico” assenta numa compreensão prévia do conhecimento (impossível num programa que lhe concede 15 horas, sem referências técnicas e textuais).
4. A proposta é vaga e obscura
Por promover debates estéreis sobre questões mal esclarecidas: que possibilidade haverá de debater seriamente a maioria dos tópicos listados nos temas/problemas que ocupam 15 horas lectivas em cada ano?
5. A proposta é enganadora
Por aparentar conformar-se à estrutura dos programas anteriores, quando corta com a perspectiva dominante desde o final dos anos 50, em que a filosofia se manifesta como “conhecimento” e “saber”. Em vez desta, impõe uma outra, de cariz ético-político. Desta maneira:
Impede o recurso aos textos dos filósofos;
Não permite uma visão equilibrada da filosofia e da actividade filosófica;
Substitui a consideração dos problemas filosóficos pela abordagem “filosófica” (melhor será dizer “retórica”) de quaisquer problemas;
Faz o ensino da Filosofia degenerar em debates irrelevantes e degradar-se em conteúdos a absorver passivamente (aumentando a dependência pedagógica e didáctica dos estudantes, em relação aos compêndios).
Por todas estas razões me parece que a proposta deve ser liminarmente rejeitada, podendo a reforma curricular avançar com a leccionação do programa actual. Deverá abrir-se um espaço de debate, tendente à busca de um consenso sobre novas propostas programáticas. O debate sobre esta proposta só me parece profícuo se os princípios que a estruturam forem negados.
13/12/2000
Co-autor do Programa de Introdução à Filosofia anterior
Caros Amigos e Colegas
Primeiro uma justificação: desde q me aposentei hesito em participar nas questões envolventes com o ensino da Filosofia em Portugal por me poderem achar deslocado e/ou intrometido, mas neste caso em particular não podia ficar indiferente e não me foi possível calar inteiramente. Quem achar q já não faço mais parte do círculo tem remédio fácil: deletar, né?
Segundo uma explicação: por vários motivos, e a disponibilidade de tempo na minha estadia aqui será o principal, estes comentários não pretendem ser exaustivos, resultam apenas de uma primeira leitura da vossa proposta e seriam certamente mais razoáveis se amadurecessem melhor em mim. Mas neste caso o mais provável era ficarem mesmo dentro de mim.
E agora vamos aos meus saberes:
1. Sempre disse, em sede própria, isto é, nas diversas acções de formação q orientei quando da apresentação do outro p.p. de IF em 1990/91 e na qualidade de co-autor do mesmo, q TODAS as críticas eram bem-vindas desde que fossem construtivas e apresentassem uma alternativa. Repeti isto mais de uma vez na lista de discussão online... e a verdade é q nem a proposta última do DES é isso: nem é construtiva nem é alternativa, mas a do CEF parece-me q sim... E por isto apetece-me muito colaborar.
2. Tb sempre me revoltei com o anonimato (ou pseudo-anonimato) de projectos nomeadamente com o(s) da IF, como o DES volta a fazer neste caso (não querendo uma vez mais os autores(as) desta emenda ao programa vigente dizer quem são, apesar de facilmente os reconhecermos), e por isto a nomeação dos responsáveis por esta proposta do CEF é digna de registo.
3. Vou começar pela NOTA FINAL:
3.1. Aqui se toca na ferida ao falar-se no afastamento progressivo dos problemas e métodos clássicos da Filosofia, mas talvez não fosse provocatório nem inútil apontar q a parte maior de culpa talvez caiba ao corpo docente universitário (que se fechou há muito numa concha defensiva) responsável pelo ensino da Filosofia e menos aos professores do ensino secundário que, além de deficientemente preparados nos seus cursos universitários, são sistematicamente desvalorizados pelos colegas do espectro dito superior, não encontram estímulo nem oportunidade para continuarem (ou mesmo começarem) sua formação na área q optaram por leccionar e finalmente muitas vezes esquecidos nestas revisões programáticas.
3.2. Aqui se afirma q esta proposta continua a ser ABERTA, o q é óptimo, mas menos vaga. E concordo, apesar de alguma reticência sobre a abertura de um programa como este q propõem. Mas a sê-lo também não ficaria mal reconhecer q a tentativa vem desde a proposta Carrilho, se manteve na de 1991 e agora parece ser aceite como adquirida.
4. A APRECIAÇÃO crítica é um dos pontos altos da vossa proposta, porque não habitual e muito útil sobretudo para se mostrar como se chegou à redacção final:
4.1. No v/ ponto 1 salienta-se o erro anterior de confundir Filosofia com exegese de textos.
Certíssimo, mas na minha opinião devia abrir-se desde já (ou fechá-lo de uma vez, se for o caso) uma porta para um tipo de programa de 12º ano à semelhança do vigente, com as necessárias revisões e correcções. Porque o q me parece um erro grave numa IF (10º e 11º anos) pode não o ser num 3º ano de estudo (12º ano) e numa disciplina opcional, ou não?
4.2. No v/ ponto 2 insiste-se de novo e muito bem no erro de confundir Filosofia com História da Filosofia (e o comentário anexo do meu amigo e colega JTS mostra bem este perigo) , mas aqui havia a reconhecer que se é possível falar-se assim hoje é porque em 1991 já foi dado um grande passo para anular essa identificação que antes era quase aceite como dado adquirido e em muitas Universidades (veja-se sobretudo a Católica e a de Évora) ainda o parece ser.
4.3. No v/ ponto 3 chama-se a atenção para o erro recorrente de se confundir Filosofia com outras áreas de estudo.
Concordo. Mas era preciso, julgo, explicar a diferença por exemplo entre os problemas/temas do mundo contemporâneo propostos (e parece q mal) no ponto 4 da unidade II do 10º ano do programa de IF vigente com os que se apresentam na vossa proposta, nomeadamente nas unidades II, III e IX.
E já agora aproveitar para nos explicarem a diferença conceptual entre os Temas (q falam em V) e os Problemas (q referem por outras vezes) além ainda dos Argumentos (q sobretudo usam na unidade VI). Isto não me parece q seja apenas uma questão semântica mas fundamental para entendermos algum rigor colocado no vosso texto, certo?
4.4. No v/ ponto 7 rejubilo em ver, finalmente, escrito preto no branco (sem nenhum laivo de racismo nisto, claro) que é um erro crasso continuar-se a incluir a lógica aristotélica num p.p. de Filosofia já que, CEF dixit, a lógica aristotélica está completamente ultrapassada.
Só temo que não seja fácil excluir o tal paradigma da lógica aristotélica e não esqueçamos q quando pela 1ª vez se colocou a opção programática de escolha entre duas vias de apresentação da Lógica, nos últimos 5 anos, a opção foi de 80% para a via aristotélica em detrimento da via moderna (o Desidério diria, da via clássica) da Lógica.
4.5. Finalmente, tal como Afonso Lopes Vieira no final de uma longa carta q escrevera a um Amigo terminava se desculpando por não ter tido tempo de ser mais breve, o mesmo estando a suceder comigo hic et nunc, também o v/ ponto 8 alerta para o erro da extensão do programa vigente e admitem q estão sendo realistas e coerentes entre a carga horária prevista e a dimensão de vossa proposta. Tomara q sim, mas continuo a achar, saber de experiência feita, q talvez ainda estejam um pouco optimistas neste item... Mas tudo bem!
5. A PROPOSTA :
5.1. Divide o Programa em 9 unidades, 5 para o 10º ano e 4 para o 11º ano.
Na I, a que chama de Introdução (será q o restante do programa não é ainda uma Introdução à Filosofia?) prevê 15 h/aula e parece-me muito bem.
Apenas uma duvida: qual a diferença q vocês entendem entre Caracterização (da Filosofia) e sua eventual Definição, para q se entenda desde logo a indefinibilidade da Filosofia?
Na II, chamada de Ética e com 20 h, propõem 8 destas para a Ética Aplicada (com problemas inclusos) e 5 para uma eventual Teor-Ética e ainda outras 5 horas para uma chamada de Meta-Ética.
Apesar das explicações dadas nas considerações e na metodologia do Programa, não seria interessante q se saiba desde agora o significado do uso desta terminologia, q sem duvida não é comum?
Depois as unidades III, IV e V pretendem falar dos antes chamados Valores (os políticos, os estéticos e os religiosos).
Tb Eu, sem duvida, gosto mais da terminologia usada agora, principalmente o chamar à Estética, Filosofia da Arte... Mas porquê haver 'problemas' na Política e não na Arte e haver 'temas' (e não 'problemas' nem 'argumentos') na Religião?
5.2. No 11º ano, como já é, mantém-se, e muito bem, creio, a abertura do ano lectivo com uma unidade dedicada à Lógica, e sobretudo chama-lhe ISSO mesmo, o que me parece elucidativo.
A carga horária agora é um pouco menor q a anterior (de 25 para 20 horas/aula) mas também os conteúdos me parecem mais simplificados (não mais simples) e por isso nada a obstar.
Aliás concordo inteiramente com a descarga em cada um dos capítulos: 2 h para uma introdução, 4 para a dos predicados e 14 horas para a lógica proposicional que também me parece deva ser o grande núcleo da unidade.
Mas pergunto: para a linguagem rigorosa q agora (e sempre) se exige não seria meio caminho andado com o anexo de um glossário especifico?
E não haverá aqui Falácias a mais para quem está dando os primeiros passos e provavelmente não vai ficar por aqui?
E a leitura proposta é menor q nas outras unidades pelas características mesmas desta ou pela ineficácia de haver mais referências bibliográficas? Pessoalmente até acho que talvez seja nas outras q há excesso de títulos...
5.3. Não me debrucei atempadamente sobre as unidades VII e VIII, pelo q deixo por ora de parte, neste despretensioso comentário, a Epistemologia e a Filosofia da Ciência, reconhecendo porém correcta a carga horária proposta para cada uma.
Por fim, uma única e superficial chamada de atenção para a denominação da ultima unidade: Metafísica é, desde sempre, uma palavra não ambígua mas de contornos diversos no decorrer dos tempos e dos espaços filosóficos. Não seria interessante uma assunção desta palavra neste contexto?
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Finais neste comentário, evidentemente, sabendo todos q o principal fica quase sempre para dizer mais tarde. E acredito q num encontro ao vivo as coisas serão mais interactivas e talvez me sinta capaz de abordar mais tecnicamente a proposta.
6.1. Estou Feliz, mesmo depois de ter interrompido (voluntariamente) o exercício da profissão, q existam colegas como vocês q assumam q a Filosofia tem conteúdos e métodos próprios, o que sempre foi sendo negado pelos donos da docência filosófica no nosso País e essa atitude resulte numa proposta como esta (só tenho receio q por isso mesmo ela não seja aceite e a sê-lo tarde de mais para eu a poder ainda exercitar!)...
Feliz por estar perante uma proposta diferente mas construtiva e sobretudo pela positiva: trazendo a Filosofia para a vida publica, retirando-a do casulo das salas de aula...
Feliz por ter visto proposto um programa para o ensino onde a Filosofia é ostensivamente apresentada como uma ACTIVIDADE (natural) e não uma teoria (e aqui me permitam uma homenagem ao meu querido Wittgenstein que dizia o mesmo em 1921!)...
6.2. É óptimo q se diga claramente q a reflexão (crítica e filosófica) dos estudantes (de Filosofia) deve ser o ponto de chegada e não o ponto de partida (mais uma vez, e ainda bem, contra toda a actividade docente tradicional em Portugal, e não só)
Mas será que o pretenso professor desta quase nova disciplina saberá (poderá ou estará disposto) a formular claramente o(s) problema(s) em causa a partir desta Proposta de Programa?
6.3. Para o êxito desta proposta, para além dos atritos cooperativos e teoréticos que vai desencadear, é de importância máxima o se ter apresentado uma exposição analítica (para uso dos professores, certo?) e mais ainda terem tido o cuidado (e a sabedoria) de apresentarem também uma METODOLOGIA e uma AVALIAÇÃO, ponto crucial (e nunca resolvido) em toda a docência da disciplina...
6.4. Dois apontamentos a terminar:
- Na unidade VI pede-se para caracterizar intuitiva e informalmente a Lógica, e apresentar argumentos validos e inválidos. Mas parece-me urgente q se clarifique desde já q se fala correctamente quando referimos Lógica Formal e Lógica Informal, por um lado e em Argumentos Validos e Informais, por outro. (A palavra informal é ainda, me parece, muito informalmente usada pelos que transmitem filosofia entre nós).
E se é verdade q o objectivo principal é dar ao estudante uma ideia do panorama geral da Lógica, nesta unidade, a verdade me parece ser q o mesmo se deverá dizer para os q a ensinam, não é verdade?
Mais: dizem q o Professor deve insistir nos exercícios feitos nas aulas (de demonstrações simples até 5 passos), mas são dados aos docentes elementos para conseguirem isto! Espero bem que consigam...
- Por fim haverá uma palavra a dizer quanto aos eventuais e obrigatórios Manuais q irão, como sempre, subverter este (ou outro) Programa.
A vossa Metodologia pretende suprir isso e suprimir, desejavelmente, os próprios Manuais: mas todos sabemos q nem a economia de mercado nem os estatutos o permitirão! Quem vai abrir mão dessa galinha de ovos (podres) mas de ouro?
Vai-se conseguir, como vocês desejam e propõem, que a Filosofia não deve repetir textos de filósofos tradicionais ou não?
E q dizer dos 3 tipos de espaços de aula q vocês referem e me parece quase um Ovo de Colombo à descoberta do caminho mais fácil para uma pedagogia eficiente (e não por objectivos, longe vá o agouro!)?
Porém uma duvida neste contexto e a terminar mesmo, prometo: Sugerem q se deva partir do mais importante para o menos importante na escolha de matéria a ser ministrada na sala de aula (sem paredes, claro).. Mas quem vai decidir esta hierarquia? Porque a sugestão de o Professor partir da experiência do próprio Aluno já era o que estava no programa de 1991 e deu as aberrações q todos nós ,que leccionamos desde esse ano até o ano corrente, bem conhecemos. E os Manuais foram disso exemplos paradigmáticos (e tristes)... Mas não se contradigam quando, mais à frente, afirmam, e bem, a natureza não empírica dos problemas filosóficos...
Uma nota sobre a Bibliografia: não haverá infelizmente algum perigo cooperativo pelo facto de se referir mais de 50% de obras editadas pela Gradiva e umas três outras online no Terravista? Sabemos q são mesmo as melhores, mas não haverá aqui uma certa dose de risco?
Licenciado em Filosofia
Não consigo compreender como poderia um programa de filosofia analítica ser injusto. Afinal, se a filosofia analítica é talvez a corrente com mais expressão internacional, parece fazer todo o sentido haver em Portugal um programa de filosofia analítica. Ou em opção a outros, ou integrado num programa mais vasto. Não vos parece óbvio? O que não me parece óbvio é que seja possível encontrar uma maneira de ensinar a filosofia que seja compatível com as perspectivas de todos os filósofos de todas as épocas e orientações. Esta é a tentativa megalómana em que tanto o CEF como o ministério se empenharam (reparem que um tal programa nunca foi encontrado, em nenhum lugar do mundo, ao contrário do que acontece em relação à música, à matemática ou à astronomia, onde existe um consenso em relação às matérias e à metodologia a seguir.).
Em todo o caso aproveito para reapresentar as razões que me levam a discordar da posição oficial do CEF sobre a neutralidade deste programa:
Ou se apresenta um programa com uma orientação específica (i.e. feito por um grupo reduzido de professores com ideias coerentes) em alternativa a outros programas. Ou se apresenta um programa aberto a todas as orientações (que, a ser possível, teria de ser realizado por um grande número de professores de orientações diversas).
Mas apresentar um programa ligado à filosofia analítica como se fosse um programa imparcial relativamente a todas as correntes filosóficas é dar o primeiro passo para impedir a discussão. Isso desfigura o programa e ofende quem não tem as mesmas convicções.
E além disso, não há nada de mal com um programa de filosofia analítica para o secundário (afinal, é só o tipo de filosofia mais discutido no mundo!!!). Porque não defendê-lo enquanto tal? Eu acho que ganharia muito mais adeptos... A clareza é sempre a melhor estratégia.
De acordo com a revisão curricular do Ensino Secundário, a vigorar a partir do ano lectivo de 2001-2002, a actual disciplina de Introdução à Filosofia, integrante da Formação Geral, passará a designar-se Filosofia. Seria de esperar a completa formulação de um novo programa. No entanto, a proposta de programa ora divulgada mais não faz do que alterações mínimas ao actual programa, raramente para melhorar os aspectos que ao longo dos últimos anos têm vindo a ser objecto de desagrado por parte de professores e alunos. O recurso aos autores clássicos, por exemplo, aligeirado no programa actual relativamente ao seu predecessor, é agora completamente suprimido. Não se trata de um novo programa, mas de uma ligeira modificação do actual.
O presente texto tem por objectivo fazer uma primeira leitura da proposta de programa para a disciplina de Filosofia, comparando-a com o programa da disciplina de Introdução à Filosofia actualmente em vigor. As respectivas unidades didácticas são colocadas em paralelo, para facilidade de leitura.
10º Ano
|
Programa actual |
Proposta |
|
I. Unidade inicial - A Intenção filosófica e a diversidade dos saberes 1. Do vivido ao pensado · Os saberes decorrentes da experiência · Linguagem e discurso: o pensamento e os seus instrumentos lógicos · A construção configuradora da experiência 2. O lugar da filosofia · A definição da filosofia como problema filosófico · A especificidade da filosofia: autonomia, radicalidade, historicidade e universalidade · Os horizontes da Filosofia e a busca de fundamentos |
I. Iniciação à actividade filosófica 1. Interpretação, comunicação e debate 1.1. Do dado à interpretação; da interpretação à argumentação 1.2. A especificidade da filosofia 2. Interpretação, argumentação e filosofia 2.1. O texto como composição: a articulação lógico-sintáctica 2.2. Problematização, conceptualização e argumentação |
No que diz respeito à unidade inicial, “Iniciação à actividade filosófica”, a proposta de programa apenas parece reorganizar a primeira unidade do programa actualmente em vigor, designada “A intenção filosófica e a diversidade dos saberes” e concretizado nas sub-unidades “Do vivido ao pensado” e “O lugar da filosofia”. Perde-se, na proposta de programa, o espaço dedicado à compreensão da Filosofia como disciplina autónoma, reduzindo “A especificidade da Filosofia” a um tema leccionado na sub-unidade intitulada “Interpretação, comunicação e debate”. Desculpando-se por continuar na Formação Geral do Ensino Secundário, a Filosofia assume a sua menoridade reduzindo a sua especificidade à actividade de argumentação.
Compreender-se-ia a existência de uma unidade sobre interpretação, comunicação, debate e argumentação. Não se compreende a sua divisão em duas sub-unidades pretensamente distintas - “Interpretação, comunicação e debate” e “Interpretação, argumentação e filosofia”, principalmente sendo estas as únicas no âmbito de uma unidade inicial designada “Iniciação à actividade filosófica”. Como se justificará aqui “A especificidade da filosofia” como conteúdo da primeira sub-unidade e não da segunda? Como se justificará o conteúdo “Problematização, conceptualização e argumentação” na segunda sub-unidade e não na primeira? Parece haver nesta primeira unidade uma inversão de perspectivas: em vez de se desenvolver a actividade argumentativa como uma especificação da actividade filosófica, é esta última que é apresentada como concretização daquela. Cabe perguntar: o que é de facto instrumento de quê? A primeira unidade da proposta de programa não é uma unidade de iniciação à actividade filosófica: é uma iniciação à actividade argumentativa, acidentalmente filosófica. Deste modo, a proposta de programa não apresenta uma verdadeira unidade de iniciação à actividade filosófica.
| Programa actual |
Proposta |
|
II. Unidade Antropológico-axiológica – A dinâmica do ser humano no mundo; a acção e a questão dos valores 1. A acção humana · Análise e compreensão do fenómeno do agir · As condicionantes da acção humana · O agente criador e os limites da acção
2. Os valores · Facto e valor · Historicidade e perenidade dos valores · Os valores no mundo contemporâneo: as novas polarizações
3. Multiplicidade dos campos de valores · A dimensão ética do agir Sociedade, liberdade e pessoa Consciência moral e responsabilidade
· A estética e a expressão artística A atitude estética perante o mundo e o comportamento estético A arte – expressão e comunicação
· A experiência religiosa e o mundo dos valores O sagrado e o profano Secularização e ressacralização
4. Situações / problemas do mundo contemporâneo (Opção por uma situação/problema e a sua abordagem segundo as dimensões tematizadas em 3 · Conflito de gerações · Responsabilidade ecológica · Busca de felicidade · Direitos humanos · Violência e agressividade · Manipulação e mass-media Outros |
II. Campos da acção humana e os valores
1. A acção humana – análise e compreensão do agir 1.1. A rede conceptual da acção 1.2. Determinismo e liberdade na acção humana
2. Os valores – análise e compreensão da experiência valorativa 2.1. Valores e valoração: a questão dos critérios valorativos 2.2. Valores e cultura: a incomensurabilidade e o diálogo das culturas 3. Multiplicidade dos campos da acção humana e dos valores 3.1. A dimensão ética – análise e compreensão da experiência moral 3.1.1. Pessoa e liberdade 3.1.2. Éticas da consciência ou éticas da responsabilidade (ou Posições éticas fundamentais) 3.2. A dimensão política – análise e compreensão da experiência política 3.2.1. A política e o direito 3.2.2. Participação política e o exercício da cidadania (ou Justiça e equidade) 3.3. A dimensão estética – análise e compreensão da experiência estética 3.3.1. A experiência e o juízo estéticos 3.3.2. A criação artística e a obra de arte 3.3.3. Arte: produção, comunicação, conhecimento 3.4. A dimensão religiosa – análise e compreensão da experiência religiosa 3.4.1. A religião e o sentido da existência: experiência da finitude e a abertura à transcendência 3.4.2. As dimensões pessoal e social das religiões 3.4.3. Religião e fé: tolerância versus fundamentalismo
4. Temas / problemas do mundo contemporâneo (Obs. Opção por um tema/problema) · Os direitos humanos e globalização · Os direitos das mulheres como direitos humanos · Responsabilidade ecológica · Cidadania e participação · Violência e agressividade · Manipulação e mass-media · Racismo e xenofobia Outros |
Relativamente à segunda unidade, a proposta de programa parte dos conteúdos do programa em vigor para os desenvolver e acrescentar. Com efeito, há um avanço no que diz respeito à especificação de conteúdos de cada sub-unidade, ainda que em alguns casos se trate de uma mera reformulação (“Sociedade, liberdade e pessoa” no programa actual, “Pessoa e liberdade” na proposta; “A arte – expressão e comunicação” no programa actual, “Arte: produção, comunicação, conhecimento” na proposta). É acrescentada a sub-unidade “A dimensão política – análise e compreensão da experiência política”, não contemplada no programa actual, apesar de neste último a política ser apresentada como uma “construção configuradora da experiência”, na primeira unidade, a par da ciência, da filosofia e da produção artística. No programa actual não se atribui à política uma dimensão axiológica, como na proposta de programa em análise.
No caso da quarta sub-unidade, a especificação não parece desenvolver positivamente o programa actual, mas limitá-lo a perspectivas mais restritas. Enquanto o programa em vigor propõe um conteúdo designado “Direitos humanos”, onde caberia desenvolver os problemas da globalização e dos direitos das mulheres, bem como questões relativas a racismo e xenofobia, entre outros, a proposta de programa apresenta temas muito mais restritos: “Os direitos humanos e globalização”, “Os direitos das mulheres como direitos humanos”, “Racismo e xenofobia”. A escolha de qualquer destes temas limita a abordagem de muitos outros que poderiam ser integrados na actual designação “Direitos humanos”.
|
Programa actual |
Proposta |
|
III. Unidade histórico-problemática – A Filosofia no tempo 1. O problema da filosofia e da sua história · As matrizes do pensamento ocidental: a filosofia clássica e o legado judaico-cristão · A Filosofia como reflexo, crítica e interpelação do seu tempo 2. Tradição e inovação em filosofia · Percurso de um tema filosófico |
-- |
Esta unidade histórico-problemática do programa actual era a única que ainda permitia leccionar alguns conteúdos de História da Filosofia. A proposta suprime-a liminarmente. Na primeira sub-unidade era possível apresentar algumas noções de filosofia grega e medieval. A segunda sub-unidade permitia acompanhar o percurso de um tema filosófico (o conceito de verdade, de bem, de felicidade) em autores de épocas diferentes. Era, na sua globalidade, uma unidade fundamental à compreensão do sentido da Filosofia como disciplina, à própria construção de uma noção de filosofia por parte dos alunos (como um saber em compromisso simultaneamente com a tradição e com a inovação). A proposta de programa permitirá que um aluno conclua os dois anos da disciplina sem nunca ter lido um texto de Platão, ou sem nunca ter ouvido falar de Aristóteles, de Descartes ou de Kant (tal dependerá, na concretização desta proposta como programa de Filosofia, do bom senso dos autores dos manuais ou dos professores). Em última análise, sem nunca ter compreendido o sentido da actividade filosófica que a própria proposta de programa subentende na sua unidade inicial: “do dado à interpretação”. Não se trata de defender o actual programa, cujas qualidades neste ponto já não são muitas. No 11º Ano, por exemplo, é actualmente possível ensinar a perspectiva fenomenológica do conhecimento sem uma única referência a Husserl (muitos manuais permitem-se omiti-lo). Esperava-se, portanto, uma proposta que atendesse a esta situação, evidentemente sem a piorar.
A ausência de uma unidade histórico-problemática na proposta de programa compromete, pois, toda a sua articulação como programa de uma disciplina de Filosofia. Esta mais não será, talvez, do que uma mera “Filosofia da Vida Quotidiana” (designação de um percurso de Licenciatura em Filosofia actualmente proposto por uma universidade privada). Não são necessários mais argumentos para compreender a proposta de programa como um grave risco de empobrecimento intelectual por parte de professores e alunos da disciplina. Da banalização ao desinteresse pela Filosofia, e deste à sua supressão do curriculum da formação geral do Ensino Secundário dar-se-ão passos mais curtos do que aqueles que hoje poderemos supor.
11º Ano
|
Programa actual |
Proposta |
|
IV. Unidade de Lógica – O Universo da Lógica 1. O pensamento e o discurso · A Lógica como estudo das condições de coerência do pensamento e do discurso · As três dimensões do discurso: sintaxe, semântica e pragmática · Os novos domínios de aplicação da Lógica: cibernética, informática, inteligência artificial 2. (A)* Noções básicas de Lógica · O conceito e o termo: extensão (denotação) e compreensão (intensão) · A definição: tipos e regras · O juízo e a proposição: validade e verdade 3. (A)* Inferências · Conversão e oposição · Raciocínio: analogia, indução e dedução · Silogismo · Falácias · Lógica aristotélica e lógica simbólica 2. (B)* Cálculo proposicional · A proposição: asserção e designação · Definições conectivas: negação, disjunção, conjunção, condicional e bicondicional · Método das tabelas de verdade · Tautologia e contradição · Leis e regras de inferência válida: modus ponens e modus tollens; dictum de omni et nullo 3. (B)* Cálculo de predicados · Quantificadores · Falácias · Lógica aristotélica e lógica simbólica 4. Argumentação e comunicação · O processo comunicativo e a argumentação · O discurso argumentativo – persuasão e refutação * Nas sub-unidades 2 e 3 os grupos disciplinares optam pelo percurso A ou B
|
III. Racionalidade argumentativa e Filosofia
1 (A). Noções básicas de lógica tradicional 1.1. A distinção validade – verdade 1.2. Conceito, juízo e raciocínio 1.3. Falácias do raciocínio
1 (B). Noções básicas de lógica moderna 1.1. A proposição: asserção e designação 1.2. Definições conectivas e tabelas de verdade 1.3. Leis e regras da inferência válida 1.4. Falácias
2. Argumentação e comunicação 2.1. O processo comunicativo e a argumentação 2.2. O discurso argumentativo – persuasão e refutação; argumentos e provas
3. Filosofia, retórica e democracia 3.1. Retórica e filosofia – do conflito à cooperação 3.2. Opinião pública e argumentação: da agora às telecomunicações 3.3. Convicção, tolerância e diálogo – a construção de um logos comum
|
Na proposta é suprimida a introdução à Lógica subjacente à sub-unidade “O pensamento e o discurso”. São aligeiradas as sub-unidades em opção, relativas à lógica aristotélica (A) e à lógica moderna (B), suprimindo-se, no percurso A, por exemplo, as teorias da conversão, da oposição e do silogismo. A proposta permite, assim, desenvolver as falácias sem ter desenvolvido as inferências. A designação da lógica aristotélica e medieval como “lógica tradicional” talvez não seja a mais adequada.
É acrescentada, na proposta, a terceira sub-unidade, intitulada “Filosofia, retórica e democracia”.
|
Programa actual |
Proposta |
|
V. Unidade epistémico-ontológica – A problemática do conhecimento V.A. A problemática do conhecimento 1. Descrição e interpretação da actividade cognitiva · Da percepção à razão · Estrutura do acto de conhecer: a questão da dicotomia sujeito/objecto · Alguns modelos explicativos do conhecimento 2. O estatuto do conhecimento científico · Unidade e diversidade das ciências; explicação e compreensão · Ciência e hipótese: validade e verificabilidade das hipóteses · O desenvolvimento da ciência: continuidade ou ruptura 3. Saber científico e reflexão filosófica · Questionamento da cultura científico-tecnológica · O problema dos limites da ciência: o poder e os riscos · Objectividade científica e mundo real V.B. Realidade e verdade 1. A realidade em questão · Cosmogonia, ciência, filosofia · Linguagem e realidade. O problema dos universais 2. O estatuto do ser · Ser, substância e existência · A questão da transcendência/imanência · As diversas configurações ontológicas 3. Conhecimento, verdade e ser
|
IV. O conhecimento e a racionalidade científica e tecnológica
1. Descrição e interpretação da actividade cognoscitiva 1.1. A estrutura do acto de conhecer 1.2. Análise comparativa de dois modelos explicativos do conhecimento 1.3. Linguagem, conhecimento e realidade 2. Estatuto do conhecimento científico 2.1. Conhecimento vulgar e conhecimento científico 2.2. Ciência e hipótese – validade e verificabilidade das hipótese 2.3. Ciência e construção: hipótese, lei, teoria
3. Saber científico e reflexão filosófica 3.1. Objectividade científica e mundo real 3.2. A relação ciência e técnica 3.3. Ciência – poder e riscos
4. Temas/problemas da cultura científico-tecnológica Obs. Opção por um tema/problema · Industrialização e impacto ambiental · Investigação científica e interesses económico-políticos · Investigação científica e exigências éticas · Impacto da ciência e da técnica na vida quotidiana Outras |
É mantida na proposta a primeira sub-unidade, designada “Descrição e interpretação da actividade cognitiva”. Na proposta, a designação “cognitiva” passa a ser “cognoscitiva”. Mantém-se “a estrutura do acto de conhecer”, o que significa que nos manuais didácticos continuará a figurar o célebre texto de Nicolai Hartmann, sistematicamente apresentado como exemplificativo da perspectiva fenomenológica do conhecimento, quando mais não faz do que descrever o conhecimento segundo a “atitude natural”, à qual Husserl opôs a “atitude fenomenológica”. Assim sendo, a proposta de programa deverá, no seu desenvolvimento, fornecer indicações precisas acerca do que deve ser leccionado no âmbito destes conteúdos.
Enquanto o programa actual permite o desenvolvimento de vários modelos explicativos do conhecimento, a proposta refere apenas a “análise comparativa de dois modelos”. Que modelos serão estes? O de Locke e Descartes? O empirismo e o racionalismo em geral? O empirismo de Hume e o racionalismo de Descartes? A optar por teorias acerca da origem do conhecimento, serão deixados de fora os problemas da natureza do conhecimento e dos limites do conhecimento? Poder-se-á (ou dever-se-á) estudar o empirismo e o racionalismo sem subsequentemente passar por Kant? A proposta parece, também nesta sub-unidade, demasiado limitada e limitadora. Tal como o desaparecimento no 10ª Ano da unidade histórico-problemática institucionaliza o desaparecimento dos filósofos gregos do programa, esta limitação do estudo dos modelos do conhecimento permitirá o desaparecimento de múltiplas referências da filosofia moderna, comprometedoras da compreensão do que se exigirá, - ainda nesta unidade -, aos alunos, designadamente todos os conteúdos relativos ao conhecimento científico: “Ciência e hipótese”, “ciência e construção”, “ciência e técnica”.
O “questionamento da cultura científico-tecnológica”, actualmente integrado na sub-unidade “Saber científico e reflexão filosófica”, passará, de acordo com a proposta de programa, a ser leccionado com recurso à análise de um tema/problema, à imagem do que acontece no 10º Ano relativamente aos temas/problemas do mundo contemporâneo. Por isso mesmo, há possibilidade de repetição desnecessária de conteúdos no caso de turmas que tenham estudado a “responsabilidade ecológica” no 10º Ano e venham a estudar a “industrialização e impacto ambiental”.
A sub-unidade “Realidade e verdade” passa a ser um mero e limitado conteúdo integrado na sub-unidade “Filosofia e outros saberes” da unidade seguinte, designada “Desafios e horizontes da filosofia hoje”. (Também a formulação da própria designação desta unidade nos parece incorrecta - dever-se-á dizer “da filosofia hoje” ou “da filosofia actual”?) Toda a sub-unidade relativa à ontologia é suprimida, e a referida transferência, - não como sub-unidade, mas como conteúdo simples -, para uma outra unidade, não permite atribuir-lhe um desenvolvimento adequado à sua importância.
|
Programa actual |
Proposta |
|
VI. Unidade final - O ser humano e o sentido da existência 1. A busca de sentido na existência humana 2. A experiência da finitude como abertura para um horizonte de sentido: natureza, humanidade, Deus |
-- |
É suprimida da proposta de programa a unidade final do programa actual, relativa ao sentido da existência, tendo alguns dos seus conteúdos sido, ao que parece, transferidos para o 10º Ano, nomeadamente para o conteúdo “A religião e o sentido da existência: experiência da finitude e a abertura à transcendência”. No seu lugar a proposta de programa coloca a unidade “Desafios e horizontes da filosofia hoje”.
|
Programa actual |
Proposta |
|
-- |
IV. Unidade final – Desafios e horizontes da filosofia hoje 1. Filosofia e outros saberes 1.1. Realidade e verdade – alguns conceitos de verdade 1.2. Necessidade de uma racionalidade prática pluridisciplinar 2. Filosofia na cidade 2.1. Espaço público/espaço privado 2.2. Fragilidade democrática e ofício da cidadania 3. Filosofia e sentido 3.1. Finitude e temporalidade 3.2. Pensamento e memória (pensar após Auschwitz) |
A importância de alguns dos conteúdos desta unidade pode ser prejudicada pelo facto de esta ser precisamente a última. No entanto, a própria unidade temática se encontra comprometida como tal, pela disparidade dos seus conteúdos, havendo certamente vantagem na sua distribuição por outras unidades da proposta de programa.